
| Category: | Books |
| Genre: | Romance |
| Author: | Graciliano Ramos |
Rubem Braga designou Vidas secas como um “romance desmontável”, pois os treze capítulos que o compõem podem ser lidos isoladamente, constituindo flagrantes mais ou menos fechados da existência sertaneja. Aliás, muitos destes capítulos foram escritos “em retalho” (GR), como se fossem contos, sendo que a obra nasceu a partir do episódio Baleia, conforme afirmativa do próprio autor:
No começo de 1937 utilizei num conto a lembrança de um cachor-ro sacrificado. (...) Transformei meu avô no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de sinha Vitória; meus tios pequenos reduziram-se a dois meninos. Publicada a história, não comprei o jornal e fiquei dois dias em casa, esperando que meus amigos esquecessem Baleia. O conto me parecia infame – e surpreendeu-me falarem dele. (...) Habituei-me tanto a eles que resolvi aproveitá-los de novo. Escrevi Sinha Vitória. Depois apareceu Ca-deia. Aí me veio a idéia de juntar as cinco personagens numa novela miúda – um casal, duas crianças e uma cachorra, todos brutos.
A obra apresenta, pois, uma composição relativamente aberta e descontí-nua, dada a autonomia dos treze quadros. Excetuando-se Mudança e Fuga, respectivamente o primeiro e o último capítulo, os demais podem não exigem a necessidade de uma leitura linear. Isso se deve, em parte, a ausência de seqüência temporal delimitada claramente entre os episódios ou de marcos cro-nológicos muito visíveis em todo o romance. Sabemos apenas que os dias pas-sam: “Entrava dia e saía dia.” Que os anos transcorrem: “Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos.” Quantos dias? Quantos anos? As respostas não permitem nem mesmo saber a idade de qualquer personagem ou a duração exata da nar-rativa.
Como observamos, a montagem do relato é feita pela justaposição de capítulos. Inexiste, portanto, ao contrário do romance tradicional, uma evolução dramática, algo que possa crescer, episódio após episódio, criando uma evolução de caracteres e um clímax. Assim, a estrutura de Vidas secas torna-se similar à incapaci-dade de Fabiano e os seus de traçarem o próprio destino. O encadea-mento convencional de episódios (como em O continente e em O guarani, por exemplo) corresponde à ação do homem sobre o mundo. Já a família sertaneja de Vidas secas é apenas vítima e, por causa de sua impotência (inclusive mental), não consegue compreender a realidade como um todo, vendo-a de maneira fragmentada e desconexa. Esta descontinuidade é levada por G.R. à própria forma de composição do romance.
No entanto, apesar desta estrutura aparentemente descosida, destas cenas quase soltas que compõem a maioria dos capítulos, o leitor percebe que há unidade e grande coesão no romance. Elas são dadas pela recorrência de certos motivos que aparecem pratica-mente em todos os episódios da obra, cimentando-a estética e ideologicamente, como veremos adiante.
Quarto e último romance de G.R., (os outros foram Caetés, São Bernardo e Angústia) Vidas secas é o único narrado em terceira pessoa. Seria obviamente impossível dar voz a Fabiano e a opção pela terceira pessoa possibilitou também uma relativa adesão do narrador ao universo retratado. Ele procura ser tão “seco” e despojado quanto as vidas que registra. Para não “olhá-las” apenas de fora, impessoalmente, o autor vale-se de maneira contínua do discurso indireto livre, como neste exemplo:
Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las, mas havia. Fos-sem perguntar a seu Tomás da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Tomás da bolandeira contaria aquela história. Ele, Fa-
biano, um bruto, não contava nada.
No dizer de um crítico, G.R. procura, em Vidas secas, “condensar o máximo no mínimo.” O estilo é despojado, cortante, quase desagradável a ouvido, centrado em orações coordenadas, curtas e diretas. Algumas pala-vras de cunho regional dificultam um pouco a leitura, mas a linguagem do narrador está alicerçada no padrão culto urbano da língua portuguesa. O crítico Otto Maria Carpeaux definiu com precisão este estilo:
A maestria singular de Graciliano reside em seu estilo. É muito meticulo-so. Quer eliminar tudo o que não é essencial: as descrições pitorescas, o lugar-comum das frases feitas, a eloqüência tendenciosa. Seria capaz ainda de eliminar páginas inteiras, eliminar os seus romances inéditos, eliminar o próprio mundo para guardar apenas o que é essencial.
